Indice del artículo
O USO DO HAICAI NO JORNALISMO DE MILLÔR FERNANDES
1. Introdução
2. Concisão e clareza
3. A informação estética
4. Millôr Fernandes e o haicai
5. Considerações finais
Referências Bibliográficas
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5. Considerações finais

Millôr (Fernandes, 1994: 311) define-se como um jornalista sem fins lucrativos, tendendo a se preocupar mais com a criação do que com a reprodução de suas obras pelos veículos informativos. O seu recente desligamento da revista Veja, em 2009, devido a um desentendimento acerca da digitalização de antigos textos para serem publicados no site da revista sem a sua autorização, é prova disso. A ênfase na criação e o não envergamento diante dos interesses das empresas não significa que ele não lucre com o trabalho, já que é remunerado desde os 14 anos de idade.

O que se percebe no jornalismo atual é uma grande pressão mercadológica por parte dos conglomerados de comunicação para que se produza com urgência notícias, mesmo que elas não tenham o mínimo de qualidade jornalística para serem transmitidas. O perigo disso é que a imprensa fique cada vez mais noticiosa e se esqueça do seu papel com o cidadão: o de contribuir para a formação do ser humano (Mattos; Siqueira, 2005).

Nesse sentido, a literatura tem muito a oferecer ao jornalismo, de fazê-lo mais envolvente, de tratar a informação por outros olhares (o descongelamento do olhar), de trabalhar com menos redundância, trabalhar a novidade, a surpresa. O problema do jornalismo contemporâneo vem do ideal de expressão máxima (conteúdo) com expressividade mínima (forma). Como salienta Silva (2002: 51), “o jornalismo quer dizer muito com pouca literatura.

É claro que nem tudo pode ser tão obscuro, ambíguo no jornalismo, cabendo ao profissional decidir a gradação certa de deformação “para dar forma expressiva a um conteúdo bruto” (Silvio, 2002: 50). A literatura diz o mesmo com outras palavras, já o jornalismo procura passar um conteúdo de forma que se perca o mínimo. E é nessa tentativa de evitar os ruídos que o jornalismo se perde, porque às vezes se consegue trabalhar melhor o conteúdo, e despertar o interesse do receptor, com certas deformações eficazes.
Como se vê, não há empecilho para trabalhar a literatura no jornalismo, já que este se utiliza daquela, consciente ou inconscientemente. A literatura não pode ser considerada apenas devaneio, irrealidade, ela é jogo de possibilidades, não buscando apenas o efeito de um real estanque, mas um outro real (Baccega apud Saito, 2003: 37).
Do mesmo modo não há impedimento de trabalhar o jornalismo na literatura. O poeta mexicano Octavio Paz diz que a boa poesia moderna está cheia de jornalismo e que gostaria de deixar para seus leitores “uns poucos poemas com a leveza, o magnetismo e o poder de convicção de um bom artigo de jornal” (Paz apud Medel, 2002: 20). Assim como alguns artigos com a espontaneidade, a concisão e a transparência de um bom poema. A mesma idéia tem o romancista colombiano Gabriel García Marquez, de que a poesia passasse a ser cada vez mais informativa e o jornalismo cada vez mais poético.

As possibilidades que a poesia traz para a comunicação não podem ser deixadas de lado no estudo acadêmico, correndo-se o risco, principalmente no jornalismo, de continuar na estagnação estrutural que se vê hoje. Nos blogs e microblogs da internet, pessoas que não cursam jornalismo conseguem atrair a atenção do público mais do que os meios de comunicação tradicionais, porque além de trabalharem com o conteúdo, trabalham com a forma. Não têm medo de ousar, de propor novas formas de abordar os assuntos.
Como Millôr (Fernandes,1994: 286) salienta, “certos escritores se pretendem eternos e são apenas intermináveis”. O mesmo ocorre com os jornalistas, acreditando que para terem mais credibilidade seja necessário escrever quilômetros de textos e offs (textos escritos para serem utilizados como áudio, sem a imagem do jornalista, em rádio e TV), fazem com que a audiência desista no meio do caminho da informação por fatiga visual, auditiva ou audiovisual.

Também não é o caso de se pensar, apenas, em produzir coisas breves, mas que a brevidade seja levada em consideração na hora da produção de algo com mais fôlego. Obras imensas podem ser breves, como é o caso d'A Comédia Humana, de Honoré de Balzac, que se não fosse escrita e reescrita inúmeras vezes, talvez necessitasse de mais do que oitenta e oito obras para suportá-la.

O jornalismo está em crise e precisa encontrar a solução no equilíbrio entre ele e a poesia. As pessoas precisam de informações que as encantem, mesmo que sejam catastróficas, e as compunjam, mesmo que sejam banais. E para isso é fundamental saber lidar com a linguagem jornalística em união com a poesia, onde se possa notar que por traz daquilo que está sendo transmitido, encontra-se alguém trabalhando para que isso desperte a atenção da audiência.

O necessário é o meio termo entre o texto de prazer e o texto de fruição. Segundo Barthes (2006: 20), o texto de prazer está relacionado a uma prática confortável de leitura, vindo da cultura e não rompendo com ela. Já o texto de fruição é aquele que gera desconforto, “faz vacilar as bases históricas, culturais e psicológicas do leitor, a consciência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem” (Barthes, 2006: 21).

Para que as palavras de Balzac (2004: 166) deixem de ecoar - “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la” - e sirvam apenas como exemplo de um passado tenebroso, as mudanças no jornalismo são imprescindíveis.