Indice del artículo
O USO DO HAICAI NO JORNALISMO DE MILLÔR FERNANDES
1. Introdução
2. Concisão e clareza
3. A informação estética
4. Millôr Fernandes e o haicai
5. Considerações finais
Referências Bibliográficas
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3. A informação estética

Muito se tem discutido sobre o conhecimento estético, sensível, adquirido pelos sentidos, e o conhecimento semântico, conquistado por meio da razão, afirmando que um opõe-se ao outro. Mas logo se vê que esse tipo de classificação, mesmo didática, é incompleta, pois tanto a estética se utiliza da razão, como a razão da estética. Kant, segundo Netto (2007: 168), acredita que o conhecimento pelos sentidos é fundamental, pois complementa o racional.

Também se questiona muito a utilidade ou não da arte, discussão trazida desde a antiguidade grega, quando ela ganha certa autonomia perante a religião e o Estado, deixando de ser ferramenta de doutrinação. A abordagem dada aqui não leva em conta os binômios utilidade/inutilidade ou funcionalidade/não-funcionalidade, mas sim o enfoque das funções da linguagem propostos por Roman Jakobson: referencial, emotiva, conativa, fática, metalinguística e estética (Netto, 2007: 168).

A função estética encarrega-se de estruturar mensagens ambíguas com relação a algum sistema sígnico, causando certo estranhamento no receptor, que ao mesmo tempo aguça o interesse na forma da mensagem. É nesse sentido que a informação estética é abordada aqui. Percebe-se, também, que as cinco primeiras funções enquadram-se no âmbito daquilo que didaticamente se encaixa no conhecimento semântico, racional, ou nesse caso, informação semântica.

O grupo da informação semântica é capaz de produzir informações denotativas, “cujo objetivo básico é a manifestação de um sentido primeiro, produtor de uma marca fechada (o sentido no plano da extensão)” (Netto, 2007: 169). Com relação à informação estética nota-se o contrário, informações de sentido conotativo, gerando sentidos múltiplos que se encaixam no plano da profundidade.

3.1 Teoria da Guerrilha Artística

É sabido que a estrutura linear de comunicação vem sofrendo mudanças devido à aceleração no processo informativo, graças à utilização das novas tecnologias. O que antes tendia à explosão e expansão, com floreios e um sem-fim de linhas de discurso lógico-ocidental vazio, tomando como exemplo os narizes de cera do jornalismo impresso do século XIX, têm evoluído para sistemas de informação instantâneos, que trabalham a implosão, a compressão e a síntese informativa (Pignatari, 2004: 167).

Oswald de Andrade, já na década de 1940, liga para o poeta paulista Paulo Mendes de Almeida e pede para ele resumir Proust ao telefone, pois precisa com urgência preparar uma tese universitária. Segundo Pignatari (2006: 167), “[Oswald] está procedendo como um homem dos novos tempos, antropófago retribalizadado devorando a divisão do trabalho e especialização”. O guerrilheiro da idade industrial Oswald de Andrade.

A guerrilha, em relação à guerra clássica linear, é uma estrutura móvel que opera dentro de uma estrutura rígida e hierarquizada, inventando-se a cada passo, “com total descaso pelas categorias e valores estratégicos e táticos já estabelecidos” (Pignatari, 2004: 168). É o trabalho da surpresa contra a expectativa, ou seja, da informação contra a redundância (Fernandes, 1997: 49):
Nuvens ao léu
Criatividade-happening
Do céu.

Quando Pignatari (2004: 168) em sua Teoria da Guerrilha Artística diz que a guerrilha é uma “colagem simultaneísta miniaturizada de todas as batalhas de uma grande guerra” remete ao pensamento de compressão e síntese visto no haicai. O terceto é um agente guerrilheiro da comunicação, onde se movimenta nas possibilidades de transmissão de informação, ao mesmo tempo em que procura individualizar o sujeito, tratá-lo como um no todo.

Mário Quintana, em um texto sobre a comunicação, esclarece que o sonho do escritor, do poeta, é individualizar o ser humano, para que se possa trabalhar com a diferença múltipla existente, “e não um infinidade de xerox infinitamente reproduzidos uns dos outros” (2007: 95). Essa possibilidade de produzir a individuação ainda é pouco trabalhada pelos produtores e transmissores de informação nos veículos de comunicação.

Para Morin (2002: 46), o mundo se encontra cada vez mais uno e particularizado, onde cada parte do mundo pertence ao mundo em sua globalidade, “e que o mundo em sua globalidade encontra-se dentro de cada parte”. Isso também é válido para os indivíduos.

E para entender esse processo de individuação, de afinidade que se cria entre o autor e o leitor, é necessário compreender como funciona a estrutura comunicativa, para que se possa criar algo novo, para que se saia da mesmice. Pignatari (2004: 170) diz que o conhecimento das estruturas leva à antiarte e à vida. Já o conhecimento das obras conduz à arte e ao distanciamento da vida. A antiarte proposta pelo autor é oposta à arte por ser contra o sistema preestabelecido, que faz mais do mesmo.

A antiarte trabalha com a metavanguarda, que é outro nome para vanguarda permanente. A vanguarda acaba sendo cooptada pelo sistema vigente e deixa de ter a sua função contestadora. A metavanguarda, por sua vez, “toma consciência de si mesma como processo experimental” (Pignatari, 2004: 170). Sendo assim, a informação está ligada à estrutura, enquanto a redundância à obra, por isso o establishment tem mais facilidade em absorver obras do que estruturas.
A difusão de estruturas é sempre mais difícil devido sua alta taxa de informação, além de sua absorção ameaçar de destruição a estrutura absorvente. É bom lembrar que a introdução de um signo novo ocasiona o alargamento de repertório e diminui a taxa de redundância do sistema. Então, a criação é essencial para a vivacidade e a renovação do sistema, para que ele se mova e não fique estagnado, já que a informação surge com a originalidade.
O sistema por sua vez, para manter a ordem, buscará novos estados de equilíbrio. É esse ciclo que faz com que a novidade surja e não se atinja nunca a redundância máxima, apesar de às vezes chegar perto. A ação nova origina-se com uma estrutura nova, que é significado novo.