Indice del artículo
O USO DO HAICAI NO JORNALISMO DE MILLÔR FERNANDES
1. Introdução
2. Concisão e clareza
3. A informação estética
4. Millôr Fernandes e o haicai
5. Considerações finais
Referências Bibliográficas
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2. Concisão e clareza

E se o conhecimento poético servir para limpar as vidraças da percepção e tornar as coisas infinitas, como diz o poeta William Blake (Andrade, 1976: 157)? Por que então mascarar, utilizar demasiadas palavras para encobrir o que as coisas realmente são? Oswald de Andrade repreende, no final da vida, os poetas que lhe mostram escritos ditos incomunicáveis, inefáveis. Questiona como isso é possível, se a poesia está nas palavras e nelas se comunica (Pignatari, 2008, p. 13).  Ao analisar um poema do castelhano Luis de Góngora, indigna-se com o rodeio feito para falar de um galo (Oswald, 1976: 157):

Aves
Cujo lascivo esposo vigilante
Doméstico é do sol núncio canoro
E – de coral barbado – não de ouro
Cinge – mas de púrpura turbante.

Oswald questiona se os poetas são apenas dementes que abominam a utilização de vocábulos específicos, empregando as palavras como valor plástico e sonoro unicamente para os seus delírios (1976: 157), dada a quantidade de escritos evasivos. Por outro lado, existem poetas preocupados, ao extremo, com a precisão das palavras, como é o caso de João Cabral de Melo Neto, que no poema Tecendo a manhã (1994: 345) trabalha com a exatidão da palavra galo:

Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

A escrita, seja ela em prosa ou em verso, não precisa utilizar palavras pomposas para parecer mais profunda. Schopenhauer (2008: 90) acredita que é possível utilizar palavras ordinárias para dizer coisas extraordinárias. O que acontece em muitos casos é o contrário, a busca de um rebuscamento para camuflar o pensamento trivial.
Em um exemplo dado pelo filósofo, extraído da peça Henrique IV, de Shakespeare, dois personagens conversam, um fala de forma muito preciosista, exagerada, enquanto o outro escuta. Este, perdendo a paciência, pede para que o outro fale o que tem a dizer como se fosse uma pessoa deste mundo (2008: 90). A anedota exemplar, como diz Pignatari, mostra que o preciosismo precisa ser bem utilizado caso queira surtir efeito, de outro modo, cria fadiga e irritação.
O haicai também mostra essa preocupação com a concisão e a clareza. Em um primeiro momento, tem-se a idéia de que o poemeto quer dizer muito com pouco, mas é uma visão equivoca, ele se propõe a dizer o suficiente com poucas palavras (Ruiz, 2008). Não interessa ao haicai abarcar o mundo com as pernas, mas simplesmente fazer um registro do que está sendo visto, como lembra Ruiz (2008). Por isso, os haicaístas são vistos como simplistas, por retratarem o mundo com uma escrita sem floreios. Mas, segundo Schopenhauer (2008: 84), todo pensador autêntico se esforça “para dar a seus pensamentos a expressão mais pura, clara, segura e concisa possível”.