Indice del artículo
O USO DO HAICAI NO JORNALISMO DE MILLÔR FERNANDES
1. Introdução
2. Concisão e clareza
3. A informação estética
4. Millôr Fernandes e o haicai
5. Considerações finais
Referências Bibliográficas
Todas las páginas

image A partir da visão de que a poesia tem muito a contribuir com a comunicação, este trabalho analisa a força comunicativa do haicai, utilizando conceitos da Teoria da Guerrilha Artística. Busca-se analisar especificamente o uso que o jornalista Millôr Fernandes fez deste poema de origem japonesa.

Marcio Acselrad
Raphael Barros Alves

Universidade de Fortaleza

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Revista 2- Año 1, (Abr-2011-Jun-2011)

ISSN 2173-6588

Resumo

A partir da visão de que a poesia tem muito a contribuir com a comunicação, este trabalho analisa a força comunicativa do haicai, utilizando conceitos da Teoria da Guerrilha Artística. Busca-se analisar especificamente o uso que o jornalista Millôr Fernandes fez deste poema de origem japonesa.

Palavras-chave
Haicai; Teoria da Informação; Informação Estética; Teoria da Guerrilha Artística; Millôr Fernandes

Abstract

Starting with the point of view that poetry has a lot to contribute with communication, this paper analyzes the communicative force of haicais, using the Artistic Guerrilla Warfare Theory. We aim to analyze the use that journalist Millôr Fernandes makes of such poetic structure of Japanese origin.

Key-words
Haicai; Information Theory; information esthetic; Artistic Guerrilla Warfare Theory; Millôr Fernandes


1. Introdução

Este trabalho surge para propor outras possibilidades para o jornalismo além daquelas utilizadas já tradicionalmente e ensinadas nas escolas de comunicação, sugerindo uma maior integração entre comunicação e poesia, especificamente, a utilização do haicai, estrutura poética de origem japonesa que trabalha com três versos, como agente comunicador, como se vê no exemplo abaixo.

Mulatas na pista,
Perco a vontade
De ser racista.

Segundo Noblat, só se tem “uma bala na agulha para capturar a atenção dos leitores: as primeiras linhas de um texto” (Noblat, 2007: 100). E se as primeiras linhas já forem todo o texto, fazendo a analogia entre a bala e o haicai? Essa é uma das possibilidades que o poemeto oferece ao jornalismo.
Assim buscaremos abordar a relação entre esta estrutura poética ancestral e sua possível contribuição para o campo da comunicação contemporânea, explorando conceitos da Teoria da Guerrilha Artística. Por fim, analisaremos haicais de Millôr Fernandes, precursor da utilização do poemeto no jornalismo nacional.


2. Concisão e clareza

E se o conhecimento poético servir para limpar as vidraças da percepção e tornar as coisas infinitas, como diz o poeta William Blake (Andrade, 1976: 157)? Por que então mascarar, utilizar demasiadas palavras para encobrir o que as coisas realmente são? Oswald de Andrade repreende, no final da vida, os poetas que lhe mostram escritos ditos incomunicáveis, inefáveis. Questiona como isso é possível, se a poesia está nas palavras e nelas se comunica (Pignatari, 2008, p. 13).  Ao analisar um poema do castelhano Luis de Góngora, indigna-se com o rodeio feito para falar de um galo (Oswald, 1976: 157):

Aves
Cujo lascivo esposo vigilante
Doméstico é do sol núncio canoro
E – de coral barbado – não de ouro
Cinge – mas de púrpura turbante.

Oswald questiona se os poetas são apenas dementes que abominam a utilização de vocábulos específicos, empregando as palavras como valor plástico e sonoro unicamente para os seus delírios (1976: 157), dada a quantidade de escritos evasivos. Por outro lado, existem poetas preocupados, ao extremo, com a precisão das palavras, como é o caso de João Cabral de Melo Neto, que no poema Tecendo a manhã (1994: 345) trabalha com a exatidão da palavra galo:

Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.

A escrita, seja ela em prosa ou em verso, não precisa utilizar palavras pomposas para parecer mais profunda. Schopenhauer (2008: 90) acredita que é possível utilizar palavras ordinárias para dizer coisas extraordinárias. O que acontece em muitos casos é o contrário, a busca de um rebuscamento para camuflar o pensamento trivial.
Em um exemplo dado pelo filósofo, extraído da peça Henrique IV, de Shakespeare, dois personagens conversam, um fala de forma muito preciosista, exagerada, enquanto o outro escuta. Este, perdendo a paciência, pede para que o outro fale o que tem a dizer como se fosse uma pessoa deste mundo (2008: 90). A anedota exemplar, como diz Pignatari, mostra que o preciosismo precisa ser bem utilizado caso queira surtir efeito, de outro modo, cria fadiga e irritação.
O haicai também mostra essa preocupação com a concisão e a clareza. Em um primeiro momento, tem-se a idéia de que o poemeto quer dizer muito com pouco, mas é uma visão equivoca, ele se propõe a dizer o suficiente com poucas palavras (Ruiz, 2008). Não interessa ao haicai abarcar o mundo com as pernas, mas simplesmente fazer um registro do que está sendo visto, como lembra Ruiz (2008). Por isso, os haicaístas são vistos como simplistas, por retratarem o mundo com uma escrita sem floreios. Mas, segundo Schopenhauer (2008: 84), todo pensador autêntico se esforça “para dar a seus pensamentos a expressão mais pura, clara, segura e concisa possível”.


3. A informação estética

Muito se tem discutido sobre o conhecimento estético, sensível, adquirido pelos sentidos, e o conhecimento semântico, conquistado por meio da razão, afirmando que um opõe-se ao outro. Mas logo se vê que esse tipo de classificação, mesmo didática, é incompleta, pois tanto a estética se utiliza da razão, como a razão da estética. Kant, segundo Netto (2007: 168), acredita que o conhecimento pelos sentidos é fundamental, pois complementa o racional.

Também se questiona muito a utilidade ou não da arte, discussão trazida desde a antiguidade grega, quando ela ganha certa autonomia perante a religião e o Estado, deixando de ser ferramenta de doutrinação. A abordagem dada aqui não leva em conta os binômios utilidade/inutilidade ou funcionalidade/não-funcionalidade, mas sim o enfoque das funções da linguagem propostos por Roman Jakobson: referencial, emotiva, conativa, fática, metalinguística e estética (Netto, 2007: 168).

A função estética encarrega-se de estruturar mensagens ambíguas com relação a algum sistema sígnico, causando certo estranhamento no receptor, que ao mesmo tempo aguça o interesse na forma da mensagem. É nesse sentido que a informação estética é abordada aqui. Percebe-se, também, que as cinco primeiras funções enquadram-se no âmbito daquilo que didaticamente se encaixa no conhecimento semântico, racional, ou nesse caso, informação semântica.

O grupo da informação semântica é capaz de produzir informações denotativas, “cujo objetivo básico é a manifestação de um sentido primeiro, produtor de uma marca fechada (o sentido no plano da extensão)” (Netto, 2007: 169). Com relação à informação estética nota-se o contrário, informações de sentido conotativo, gerando sentidos múltiplos que se encaixam no plano da profundidade.

3.1 Teoria da Guerrilha Artística

É sabido que a estrutura linear de comunicação vem sofrendo mudanças devido à aceleração no processo informativo, graças à utilização das novas tecnologias. O que antes tendia à explosão e expansão, com floreios e um sem-fim de linhas de discurso lógico-ocidental vazio, tomando como exemplo os narizes de cera do jornalismo impresso do século XIX, têm evoluído para sistemas de informação instantâneos, que trabalham a implosão, a compressão e a síntese informativa (Pignatari, 2004: 167).

Oswald de Andrade, já na década de 1940, liga para o poeta paulista Paulo Mendes de Almeida e pede para ele resumir Proust ao telefone, pois precisa com urgência preparar uma tese universitária. Segundo Pignatari (2006: 167), “[Oswald] está procedendo como um homem dos novos tempos, antropófago retribalizadado devorando a divisão do trabalho e especialização”. O guerrilheiro da idade industrial Oswald de Andrade.

A guerrilha, em relação à guerra clássica linear, é uma estrutura móvel que opera dentro de uma estrutura rígida e hierarquizada, inventando-se a cada passo, “com total descaso pelas categorias e valores estratégicos e táticos já estabelecidos” (Pignatari, 2004: 168). É o trabalho da surpresa contra a expectativa, ou seja, da informação contra a redundância (Fernandes, 1997: 49):
Nuvens ao léu
Criatividade-happening
Do céu.

Quando Pignatari (2004: 168) em sua Teoria da Guerrilha Artística diz que a guerrilha é uma “colagem simultaneísta miniaturizada de todas as batalhas de uma grande guerra” remete ao pensamento de compressão e síntese visto no haicai. O terceto é um agente guerrilheiro da comunicação, onde se movimenta nas possibilidades de transmissão de informação, ao mesmo tempo em que procura individualizar o sujeito, tratá-lo como um no todo.

Mário Quintana, em um texto sobre a comunicação, esclarece que o sonho do escritor, do poeta, é individualizar o ser humano, para que se possa trabalhar com a diferença múltipla existente, “e não um infinidade de xerox infinitamente reproduzidos uns dos outros” (2007: 95). Essa possibilidade de produzir a individuação ainda é pouco trabalhada pelos produtores e transmissores de informação nos veículos de comunicação.

Para Morin (2002: 46), o mundo se encontra cada vez mais uno e particularizado, onde cada parte do mundo pertence ao mundo em sua globalidade, “e que o mundo em sua globalidade encontra-se dentro de cada parte”. Isso também é válido para os indivíduos.

E para entender esse processo de individuação, de afinidade que se cria entre o autor e o leitor, é necessário compreender como funciona a estrutura comunicativa, para que se possa criar algo novo, para que se saia da mesmice. Pignatari (2004: 170) diz que o conhecimento das estruturas leva à antiarte e à vida. Já o conhecimento das obras conduz à arte e ao distanciamento da vida. A antiarte proposta pelo autor é oposta à arte por ser contra o sistema preestabelecido, que faz mais do mesmo.

A antiarte trabalha com a metavanguarda, que é outro nome para vanguarda permanente. A vanguarda acaba sendo cooptada pelo sistema vigente e deixa de ter a sua função contestadora. A metavanguarda, por sua vez, “toma consciência de si mesma como processo experimental” (Pignatari, 2004: 170). Sendo assim, a informação está ligada à estrutura, enquanto a redundância à obra, por isso o establishment tem mais facilidade em absorver obras do que estruturas.
A difusão de estruturas é sempre mais difícil devido sua alta taxa de informação, além de sua absorção ameaçar de destruição a estrutura absorvente. É bom lembrar que a introdução de um signo novo ocasiona o alargamento de repertório e diminui a taxa de redundância do sistema. Então, a criação é essencial para a vivacidade e a renovação do sistema, para que ele se mova e não fique estagnado, já que a informação surge com a originalidade.
O sistema por sua vez, para manter a ordem, buscará novos estados de equilíbrio. É esse ciclo que faz com que a novidade surja e não se atinja nunca a redundância máxima, apesar de às vezes chegar perto. A ação nova origina-se com uma estrutura nova, que é significado novo.

 


4. Millôr Fernandes e o haicai

Em 1957, Millôr Fernandes, escritor e jornalista carioca conhecido como “o filósofo do Méier”, começa a publicar haicais na seção de humor intitulada Pif-Paf da extinta revista O Cruzeiro. Nessa época, com 33 anos, quase vinte anos de carreira, Millôr já praticava a filosofia que menciona em sua Bíblia do Caos: “não se escreve com 11 palavras o que se pode escrever com 10 (a não ser que você seja americano e ganhe por palavra; aí a proposição dever ser invertida)” (Millôr, 1994: 7).
O poder de concisão, segundo o autor, talvez tenha surgido pela consciência profissional de não “encher o saco” do leitor. Mas se engana quem pensa que o trabalho da brevidade seja fácil. A escrita rápida exige do autor um trabalho intenso com a língua, e mais ainda quando se trabalha com a concisão e o humor.
Pensando sobre o assunto Paulillo (1980: 97) esclarece que é necessário grande fôlego por parte de Millôr para tal escrita, já que ele se vê obrigado a recorrer a uma série de recursos estilísticos “para provocar e manter o impacto que leva o leitor a rir”, pensar e pensar-se. Dá-se a interação entre a elaboração formal e o efeito humorístico (Fernandes, 1997: 10):

No ai
Do recém-nascido
A cova do pai

O haicai para Millôr (1997: 5), apesar de ter uma forma frágil, quase volátil, que depende “da imagística mais do que qualquer outra poesia, uma implosão, não uma explicitação”, é de grande apelo popular e facilmente se comunica com a audiência. Por isso, buscando trabalhar o lado popular do terceto, o autor não se preocupa com a silabação (5-7-5), com uma estrutura fixa, mas prefere deixar a espontaneidade fluir, falando de políticos, sociedade e natureza com o mesmo lirismo que Bashô retrata a rã.
Percebe-se nos haicais do Guru do Méier a sua afinidade com a escola Danrim-fú, conhecida pelo coloquialismo e humor direto e cru, como salienta Guttilla (2009: 134). A veia satírica também está descaradamente presente, mesmo quando trata de temas pouco tragáveis para o leitor (Fernandes, 1997: 20):
Passeio aflito;
Tantos amigos
Já granito.

A informação estética não se preocupa com a abertura excessiva de significado de uma forma proposta, pelo contrário, pode utilizá-la como fim em si. Mas em determinadas situações, essa abertura pode acarretar no não cumprimento da intenção do informador, que é promover algum tipo de mudança no comportamento do receptor. Para que isso não aconteça, existem alguns recursos que podem facilitar o entendimento da mensagem, como é o caso da utilização do ruído controlado.
Esse tipo de ruído também é conhecido como “ruído branco”, porque ao invés de atrapalhar na transmissão da mensagem, ajuda (Netto, 2007: 156). É colocado um tipo de fundo na forma, para que ela possa ser percebida mais claramente, com menos ambiguidade. Funciona como um coeficiente de segurança, uma espécie de redundância. Em história em quadrinhos, por exemplo, é frequente a utilização de fundos para que se possa contextualizar as ações das personagens.
No caso dos haicais de Millôr, o recurso de periodicidade é utilizado para aumentar a inteligibilidade das mensagens. Isso significa o uso de repetições, propiciando ao leitor elementos necessários para certa previsão das formas transmitidas. Numa leitura consecutiva dos tercetos de Millôr, nota-se as rimas utilizadas e o estado de expectativa que elas provocam. Os três haicais servem de exemplo (Fernandes, 1997: 18, 41, 45):

Usucapião
É contemplar as nuvens
Do próprio chão.  

Meu dinheiro
Vem todo
Do meu tinteiro.

Problemas terrenos:
Quem vive mais
Morre menos?

Nos exemplos, percebe-se a utilização de rimas nos primeiros e terceiros versos, que proporcionam maior previsão na leitura dos haicais de Millôr. O leitor, depois de ler três ou quatro tercetos, nota que o autor utiliza-se de rimas, fazendo com que o receptor aproxime-se do haicai, forma pouco difundida e usual.


5. Considerações finais

Millôr (Fernandes, 1994: 311) define-se como um jornalista sem fins lucrativos, tendendo a se preocupar mais com a criação do que com a reprodução de suas obras pelos veículos informativos. O seu recente desligamento da revista Veja, em 2009, devido a um desentendimento acerca da digitalização de antigos textos para serem publicados no site da revista sem a sua autorização, é prova disso. A ênfase na criação e o não envergamento diante dos interesses das empresas não significa que ele não lucre com o trabalho, já que é remunerado desde os 14 anos de idade.

O que se percebe no jornalismo atual é uma grande pressão mercadológica por parte dos conglomerados de comunicação para que se produza com urgência notícias, mesmo que elas não tenham o mínimo de qualidade jornalística para serem transmitidas. O perigo disso é que a imprensa fique cada vez mais noticiosa e se esqueça do seu papel com o cidadão: o de contribuir para a formação do ser humano (Mattos; Siqueira, 2005).

Nesse sentido, a literatura tem muito a oferecer ao jornalismo, de fazê-lo mais envolvente, de tratar a informação por outros olhares (o descongelamento do olhar), de trabalhar com menos redundância, trabalhar a novidade, a surpresa. O problema do jornalismo contemporâneo vem do ideal de expressão máxima (conteúdo) com expressividade mínima (forma). Como salienta Silva (2002: 51), “o jornalismo quer dizer muito com pouca literatura.

É claro que nem tudo pode ser tão obscuro, ambíguo no jornalismo, cabendo ao profissional decidir a gradação certa de deformação “para dar forma expressiva a um conteúdo bruto” (Silvio, 2002: 50). A literatura diz o mesmo com outras palavras, já o jornalismo procura passar um conteúdo de forma que se perca o mínimo. E é nessa tentativa de evitar os ruídos que o jornalismo se perde, porque às vezes se consegue trabalhar melhor o conteúdo, e despertar o interesse do receptor, com certas deformações eficazes.
Como se vê, não há empecilho para trabalhar a literatura no jornalismo, já que este se utiliza daquela, consciente ou inconscientemente. A literatura não pode ser considerada apenas devaneio, irrealidade, ela é jogo de possibilidades, não buscando apenas o efeito de um real estanque, mas um outro real (Baccega apud Saito, 2003: 37).
Do mesmo modo não há impedimento de trabalhar o jornalismo na literatura. O poeta mexicano Octavio Paz diz que a boa poesia moderna está cheia de jornalismo e que gostaria de deixar para seus leitores “uns poucos poemas com a leveza, o magnetismo e o poder de convicção de um bom artigo de jornal” (Paz apud Medel, 2002: 20). Assim como alguns artigos com a espontaneidade, a concisão e a transparência de um bom poema. A mesma idéia tem o romancista colombiano Gabriel García Marquez, de que a poesia passasse a ser cada vez mais informativa e o jornalismo cada vez mais poético.

As possibilidades que a poesia traz para a comunicação não podem ser deixadas de lado no estudo acadêmico, correndo-se o risco, principalmente no jornalismo, de continuar na estagnação estrutural que se vê hoje. Nos blogs e microblogs da internet, pessoas que não cursam jornalismo conseguem atrair a atenção do público mais do que os meios de comunicação tradicionais, porque além de trabalharem com o conteúdo, trabalham com a forma. Não têm medo de ousar, de propor novas formas de abordar os assuntos.
Como Millôr (Fernandes,1994: 286) salienta, “certos escritores se pretendem eternos e são apenas intermináveis”. O mesmo ocorre com os jornalistas, acreditando que para terem mais credibilidade seja necessário escrever quilômetros de textos e offs (textos escritos para serem utilizados como áudio, sem a imagem do jornalista, em rádio e TV), fazem com que a audiência desista no meio do caminho da informação por fatiga visual, auditiva ou audiovisual.

Também não é o caso de se pensar, apenas, em produzir coisas breves, mas que a brevidade seja levada em consideração na hora da produção de algo com mais fôlego. Obras imensas podem ser breves, como é o caso d'A Comédia Humana, de Honoré de Balzac, que se não fosse escrita e reescrita inúmeras vezes, talvez necessitasse de mais do que oitenta e oito obras para suportá-la.

O jornalismo está em crise e precisa encontrar a solução no equilíbrio entre ele e a poesia. As pessoas precisam de informações que as encantem, mesmo que sejam catastróficas, e as compunjam, mesmo que sejam banais. E para isso é fundamental saber lidar com a linguagem jornalística em união com a poesia, onde se possa notar que por traz daquilo que está sendo transmitido, encontra-se alguém trabalhando para que isso desperte a atenção da audiência.

O necessário é o meio termo entre o texto de prazer e o texto de fruição. Segundo Barthes (2006: 20), o texto de prazer está relacionado a uma prática confortável de leitura, vindo da cultura e não rompendo com ela. Já o texto de fruição é aquele que gera desconforto, “faz vacilar as bases históricas, culturais e psicológicas do leitor, a consciência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem” (Barthes, 2006: 21).

Para que as palavras de Balzac (2004: 166) deixem de ecoar - “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la” - e sirvam apenas como exemplo de um passado tenebroso, as mudanças no jornalismo são imprescindíveis.


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