Indice del artículo
A VELOCIDADE DAS TIC E A AMPLIAÇÃO DE LIMITES TERRITORIAIS
1. Introdução
2. A poluição das distâncias
3. Ampliação do (ciber)espaço e exclusão de limites territoriais
4. Considerações finais
5.REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
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2.  A poluição das distâncias

Ao lado da poluição ambiental e atmosférica com a qual os seres se deparam diariamente, há outra poluição, que permanece ao nosso redor. Virilio (2000, p. 87) diz que esta é a poluição das distâncias e das durações de tempo. Em resumo, da velocidade, visto que, de alguns anos para cá o tempo tem sido raro para muitas tarefas e a velocidade de atividades, de informação, de tempo tem tomado a vida humana. Entretanto, como na contemporaneidade a atenção maior está voltada para a poluição da natureza e suas implicações para a manutenção e qualidade da vida útil da sociedade, muitas vezes não se nota essa outra poluição que, segundo o autor, reduz em expressividade ao patamar do nada as dimensões terrestres.

É notória que a interdependência dos lugares é a nova realidade do território. Passou-se do fundamento do Estado-Nação, que tinha o território geográfico como base, para a noção pós-moderna de transnacionalização do território, fato este possível, principalmente, representado pelos caminhos dos conteúdos comunicacionais. Observa-se que nesse contexto de desenvolvimento tecnológico, as fronteiras geográficas são desprezadas pela modernização da mídia. É possível afirmar também que a comunicação globalizada, mundializada, se refere à crescente interconexão entre as diferentes partes do mundo, um processo que deu origem às formas complexas de interação e interdependência.

As distâncias foram encurtadas e as fronteiras econômicas e culturais transpostas. Nota-se a utilização continua e a convivência das mídias digitais com maior ou menor grau, dependendo da localidade ou necessidade. O ato de conectar sociedades, grupos e multidões está há muito presente nos veículos de comunicação. Claro que desde a implantação e desenvolvimento do rádio com a utilização dos espectros de ondas curtas, médias e tropicais, muitas mudanças puderam ser acompanhadas e hoje se tem pelo menos no ocidente, nas sociedades democráticas, uma comunicação sem fronteiras, informações sem fronteiras.

No Brasil, uma pesquisa realizada em 2009 pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br)  abrangeu, pelo segundo ano consecutivo, também a área rural do país, dando continuidade à série de cinco pesquisas com resultados consolidados. A posse de computador teve o seu maior crescimento nos últimos 5 anos: 36% dos domicílios possuem computador, enquanto apenas 28% tinham o equipamento em 2008. O mesmo ocorreu com o uso da Internet, passando de 20% dos domicílios com acesso à Internet em 2008, para 27% em 2009, representando um crescimento de 35% no período. O estudo apontou crescimento significativo no percentual de acessos à Internet nos domicílios em comparação aos centros públicos pagos, conhecidos popularmente como lanhouses. Pela primeira vez desde 2007 o acesso residencial, com 48% das menções, ficou à frente das lanhouses, citadas por 45% dos respondentes.

Os resultados de 2009 confirmam a tendência de aumento da posse das tecnologias de informação e comunicação (TICs) nos domicílios brasileiros. A televisão continua líder nos lares urbanos, mantendo o índice de 98%, seguido pelo rádio, com 86%. O telefone celular no mesmo ano estava presente em 82% das residências nas áreas urbanas e em 78% no total do país. Outro destaque é o crescimento do computador portátil. Entre 2007 e 2008 a posse deste equipamento cresceu 70%, passando de 3% para 5%.

O tipo de conexão à Internet mais utilizada nos domicílios é a conexão dedicada em banda larga, presente em 66% dos lares que possuem acesso à Internet. Apesar de se concentrar nos domicílios economicamente mais favorecidos, a taxa de crescimento anual mostra que a população com menor renda possui cada vez mais esse tipo de conexão. De 2008 a 2009, a utilização de serviços de comunicação móvel cresceu 12%.

Souza e Alvarenga (2004) explicam que a Internet surgiu como proposta de um sistema distribuído de comunicação entre computadores para possibilitar a troca de informações na época da Guerra Fria. A implantação do conceito de hipertexto  proposto por Ted Nelson e Douglas Engelbart (em 1962), buscava oferecer interfaces mais amigáveis e intuitivas para a organização e o acesso ao crescente repositório de documentos que se tornava a Internet. Entretanto, a rapidez, o enorme crescimento – além das expectativas – do alcance e tamanho desta rede e da ampliação das possibilidades de utilização, fazem com que seja necessária uma nova filosofia, com suas tecnologias subjacentes, além da ampliação da infraestrutura tecnológica de comunicação.

1.1 A proximidade no ciberespaço e o surgimento da nova inteligência

Este panorama de consumo e utilização de mídias vem corroborar a condição de ‘união’, de proximidade é viável quando se pensa em locais distantes, em pessoas distantes. Entretanto, quando se dá conta de que se pode estar conectado com o vizinho de porta, alguém tão próximo geograficamente, essa realidade se altera. A poluição à qual Virilio (2000: 87) se refere está ligada também a essa degradação da proximidade física entre os seres, causada pelo meio artificial no qual vivem as cidades e as sociedades. Houve, portanto, uma ruptura na relação com o outro, na relação com o mundo físico, com a unidade de vizinhança, com o familiar, com o próximo.

O estado de proximidade no qual se acredita estar quando se está no ciberespaço dá a noção de sermos “Cidadãos do Mundo”, diz Virilio (2000: 88). Essa condição de cidadão do mundo e não mais de uma sociedade, de uma cidade, segundo o autor, faz com que esqueçamos, demasiadas vezes, que habitamos também as dimensões físicas. Essa deterioração do contato com o mundo sensível se une à ecologia da natureza. Seria então uma ecologia do artifício das técnicas do transporte e das transmissões que exploram o campo das dimensões do meio geofísico e lhes degradam a amplitude.

Essa ecologia da velocidade se mistura à ecologia verde e o que se tem são as ecologias: cinzenta ao lado da verde. Virilio intitula esta ecologia como ‘cinzenta’, pois a cor cinza é o resultado de uma mistura de cores, seria uma não-cor. Para ele a velocidade mata a cor e é o que está ocorrendo com a sociedade. Essa ecologia da natureza do cinzento reordenará, sendo o autor, o mundo todo e a cidade-mundo será totalmente dependente das telecomunicações surgidas no final do século XX, início do século XXI.

Para Baudrillard (1995), uma característica do mundo atual é a proliferação incessante de objetos (“o tempo dos objetos”), além do aparecimento constante de certas novidades que rapidamente se tornam de uso mais ou menos comum, como o telefone celular, o videocassete ou o CD, por exemplo. Segundo o autor, num passado não muito distante, havia uma perenidade que hoje já não há: "Os objetos viam o nascimento e a morte de gerações humanas. Atualmente, são os homens que assistem ao início e ao fim dos objetos" (Baudrillard, 1995: 15).

A supremacia urbana desenvolvida no século XX e em constante expansão, parece exigir uma inteligência do artifício e não apenas uma outra política da natureza. Essa inteligência é descrita por Pierre Lévy (1999) como a Inteligência Coletiva (IC). O autor (1999: 157) explica que essas “tecnologias intelectuais (...) amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas”, encurtando distâncias e o tempo de acesso às informações.

Conforme Lévy (1999 apud DOS ANJOS, 2006), a palavra inteligência, ao ser ouvida pode levar o indivíduo a pensar a respeito de tudo o que se encontra armazenado em sua cabeça desde o dia de seu nascimento até àquele exato momento; consequentemente, também o leva a se questionar se é ou não inteligente. A inteligência “é o conjunto canônico das aptidões cognitivas, a saber, as capacidades de perceber, de lembrar, de aprender, de imaginar, de raciocinar” (LÉVY, 1994: 97). A segunda palavra é “coletiva” que é também carregada de importantes significados. Para Ideylson dos Anjos (2006: 29), ao se falar de coletividade recorda-se de um grupo de pessoas, composto de indivíduos que se ajudam mutuamente. Pode-se lembrar também dos grupos do local de trabalho, da Igreja, do bairro, como um grande grupo concentrado em um determinado local, e, por fim, pode-se referir ao gigantesco grupo da humanidade, no qual todos os seres humanos tentam se organizar para viver.

Nas palavras de Lévy (1999), a humanidade caminha para a construção de um novo espaço antropológico, o espaço do saber, no qual os seres humanos estarão interligados em tempo real pela Internet. Neste espaço, o ciberespaço, a inteligência será o centro das relações. Sobre essa constatação Kerckvove (1997: 250) expõe que a rapidez e a velocidade de processamento, futuramente, irão custar mais caro do que o próprio espaço. Dessa forma, estaria se desenvolvendo uma nova consciência do tempo “como se, depois de termos conquistado o espaço tornando-o menos constrangedor, a evolução tecnológica estivesse agora a dirigir-se ao tempo – real, virtual, pessoal e social – considerando-o como a última fronteira”.

Diante dessa nova reorganização geográfica, não se pode deixar de notar a nova relação entre lugar, distância e tempo criada pela revolução das transmissões. Embora se tenha uma proximidade útil, o encurtamento das distâncias e o aproveitamento maior do tempo, a cultura da velocidade deve ser revista. Pela sua utilização exagerada, tem-se a impressão e em alguns casos a nítida certeza de que o tempo é uma riqueza que está escasseando. Não ocorre mais como na sabedoria oriental, que dizia “o tempo é útil quando não é empregado” (VIRILIO, 2000: 90). O tempo é útil quando está preenchido de todas as maneiras, até mesmo com o vazio, com a não utilização deste, com o seu “desperdício”.

De Masi (2000) complementa que é necessário um tempo de ociosidade para, a partir deste “tempo”, surgir a criação. Pode-se admitir, na contemporaneidade, que estes tempos são permeados de aparatos de telecomunicações que no transcorrer dos anos, se tornaram indispensáveis à vida humana, à sociedade vigente. A importância das dimensões geofísicas não deve ser deixada de lado e nem ser tomada como algo negativo. Não fossem essas distâncias, não teria havido todos os esforços nas épocas dos descobrimentos; o homem não teria ido à Lua, não teria descoberto continentes e planetas, por exemplo.

Virilio (2000: 91) destaca ainda que existe uma última poluição depois do empreendimento ferroviário  e de um sistemas de autoestradas continental: a poluição da extensão geográfica pelo transporte supersônico e os novos meios de telecomunicação. Isso pressupõe estragos sob o sentimento de realidade do ser humano, uma perda de sentido de um mundo fragmentado, menos inteiro. Um sentimento de ausência de meio ambiente, uma morte geográfica em razão da aceleração dos media.

Essa aceleração pressupõe a lei do menor esforço, que impulsiona a criação e o uso das tecnologias. Sempre voltadas para ‘trabalhar’ para o ser humano, para que este se canse menos, se movimente mais rapidamente de um lugar a outro e possa aproveitar melhor seu tempo, proporcionando mais conforto. Isso é uma situação contraditória, pois, ao mesmo tempo em que se faz uso das tecnologias, perde-se a noção, inclusive, do peso físico, o que pode ocasionar sedentarismo involuntário, ocupação mental intelectual levando ao distanciamento da fragilidade física, da condição material do homem.

O ciberespaço oferece um mundo não-físico, sem movimento e, por conseguinte, sem fadiga. A Lei do menor esforço impera com propriedade no mundo virtual.
Com a ausência de esforço das tecnologias, para ouvir, ver ou agir à distância, abolindo as direções, a vastidão do horizonte terrestre, resta-nos descobrir daqui em diante o ‘novo mundo’, já não como há cinco séculos, o dos longínquos antípodas, mas o mundo de uma proximidade sem futuro, em que as tecnologias do tempo real prevalecerão em breve sobre aquelas que ordenavam outrora o espaço real do Planeta (VIRILIO, 2000: 92)

No ano 2000, quando Virilio teceu esse comentário, o Brasil ainda não estava ‘ciberespacializado’ tão profundamente como está atualmente e como estará daqui em diante. Na década passada vivenciava-se uma Internet mais lenta e com menos possibilidades de ferramentas interativas. Em junho de 2000  o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatísticas-IBOPE divulgou uma pesquisa que mostrou o avanço da internet no Brasil. Em fevereiro, eram 4,5 milhões de pessoas com acesso a rede no país. Em termos relativos, o número de internautas aumentou de 12% para 13% da população das regiões pesquisadas, onde viviam 38 milhões de pessoas. Apenas 5% (1,9 milhão) desse total navegavam em casa. A pesquisa foi feita com 15.396 pessoas entre 15 e 28 de maio, em nove regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza e Distrito Federal). Já no final do ano de 2000 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas -IBGE, divulgou o resultado de uma pesquisa realizada em 2009 que revelava a relação de usuários por habitante no Brasil, de 10 a 50 usuários de Internet para cada 10 mil habitantes. O índice é considerado baixo e faz parte dos dados do Atlas Nacional do Brasil. Na Austrália, por exemplo, a relação é de 100 a 500 usuários para cada 10 mil habitantes. Segundo o instituto Ibope Nielsen Online , de outubro de 2009 a outubro de 2010, no Brasil o número de usuários ativos (que acessam a Internet regularmente) cresceu 13,2%, atingindo 41,7 milhões de pessoas.

Conforme Derrick de Kerckhove (1997: 242), o espaço da Internet não é neutral não tem fronteiras, não é estável, nem unificado. Para o autor ela comporta-se como um sistema autorregulado em constante movimento, embora possa ser considerado como espaço público  de atividades coletivas.