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A VELOCIDADE DAS TIC E A AMPLIAÇÃO DE LIMITES TERRITORIAIS
1. Introdução
2. A poluição das distâncias
3. Ampliação do (ciber)espaço e exclusão de limites territoriais
4. Considerações finais
5.REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS
Todas las páginas

image Este artigo aborda a velocidade das telecomunicações e da consequente ampliação territorial devido à onipresença do ciberespaço. Com a rapidez das Tecnologias da Informação e Comunicação, os contatos face a face ficam mais escassos e vive-se novas práticas sociais, formas de atividades coletivas no ciberespaço e diante de uma natureza das distâncias, que causa uma poluição nem sempre notada.

Caroline Petian Pimenta Bono Rosa
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
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Gladis Linhares Toniazzo
Universidade Metodista de São Paulo
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Revista 2- Año 1, (Abr-2011-Jun-2011)

ISSN 2173-6588

Resumo

Este artigo aborda a velocidade das telecomunicações e da consequente ampliação territorial devido à onipresença do ciberespaço. Com a rapidez das Tecnologias da Informação e Comunicação, os contatos face a face ficam mais escassos e vive-se novas práticas sociais, formas de atividades coletivas no ciberespaço e diante de uma natureza das distâncias, que causa uma poluição nem sempre notada. Paul Virilio, Derrick de Kerckvove e Pierre Lévy sustentam as considerações acerca dos limites territoriais físicos, bem como da informação e da comunicação em uma época tão veloz em novidades telecomunicacionais e em aproveitamento de tempo e de espaço.

Palavras-chave
Cibercultura; Aceleração das TIC; Distâncias Comunicacionais; Ecologia Cinzenta; Inteligência Coletiva.


Abstract

This article discusses the speed of telecommunications and the ensuing territorial expansion due to the ubiquity of cyberspace. With the rapidity of Information Technologies and Communication, face to face contacts become more scarce and you get a new social practices, new forms of collective activities in cyberspace and on the nature of the distances, which causes a pollution not always noticed. Paul Virilio, Derrick de Kerckvove and Pierre Lévy submit comments about the physical boundaries as well as information and communication in an age so fast in telecomunicaciones news and best use of time and space.

Keywords
Cyberculture; Acceleration of ICT; Communicational Distances; Gray Ecology, Collective Intelligence.


1. Introdução

A velocidade do desenvolvimento e aplicação das telecomunicações, dos aparelhos, das possibilidades de comunicação faz parte do que Trivinho (2007) explica como dromocracia cibercultural. O prefixo grego dromos refere-se à rapidez, à agilidade e se articula socialmente na velocidade. A cibercultura se desloca pela dromocracia e se caracteriza pelo gerenciamento infotécnico da dromoaptidão. Essa dromoaptidão pode ser individual ou grupal no ciberespaço . Na cibercultura o que é vigente é a dromoaptidão grupal, a convivência coletiva.

Ideylson dos Anjos (2006) destaca que pela Internet se constrói uma rede mundial, na qual todos estão interligados num mesmo espaço – o ciberespaço – e num tempo presente, onde há contatos de um para com cada um, de um para com todos, e de todos para com todos que estão conectados. Diante dessa exposição, percebe-se que a noção de espaço e tempo, que até então só fora mudada no nascimento da escrita, se vê totalmente transformada devido ao surgimento desse sistema que unifica o mundo em tempo presente e indeterminado.

O ciberespaço é um local de conexão que dispensa a presença física. Os receptores virtuais também são produtores de sentido e não atuam de forma passiva. Os interagentes que atuam neste espaço, captando os conteúdos, não podem ser considerados como passivos, mas sim receptor-sujeito ativo e seletivo atuante no ciberespaço. Com a infinidade de tecnologias voltadas para a comunicação que surgem a cada momento em um ritmo ininterrupto e irreversível, o cidadão, parte integrante da dromocracia cibercultural, é forçado a se adaptar às mudanças de comportamento e práticas sociais.

Os conceitos e práticas das novas tecnologias da informação e comunicação (TIC), surgidas, em especial, após as evoluções da Internet inicial (criada por Tim Berners-Lee, na década de 1990), são incorporados por indivíduos e organizações e isso causa impacto também no processo de produção e distribuição de inovações, bem como no cotidiano dos seres humanos.

Diante das novidades tecnológicas – e voláteis – às quais está submetido, o ser humano perde, de certa forma, a noção de presença física e contato. Pode-se ‘estar’ em vários locais do mundo via telefones celulares, Internet e videoconferências, por exemplo, entretanto, ao mesmo tempo, pode-se não conhecer fisicamente o vizinho que mora bem em frente.

Essa amplitude do ‘estar’ em lugares distantes e transpor limites territoriais antes inimagináveis é o tema central deste artigo, que apresenta diálogos, principalmente, entre os autores Paul Virilio, Derrick de Kerckvove e Pierre Lévy para apoiar teoricamente as considerações aqui apontadas.


2.  A poluição das distâncias

Ao lado da poluição ambiental e atmosférica com a qual os seres se deparam diariamente, há outra poluição, que permanece ao nosso redor. Virilio (2000, p. 87) diz que esta é a poluição das distâncias e das durações de tempo. Em resumo, da velocidade, visto que, de alguns anos para cá o tempo tem sido raro para muitas tarefas e a velocidade de atividades, de informação, de tempo tem tomado a vida humana. Entretanto, como na contemporaneidade a atenção maior está voltada para a poluição da natureza e suas implicações para a manutenção e qualidade da vida útil da sociedade, muitas vezes não se nota essa outra poluição que, segundo o autor, reduz em expressividade ao patamar do nada as dimensões terrestres.

É notória que a interdependência dos lugares é a nova realidade do território. Passou-se do fundamento do Estado-Nação, que tinha o território geográfico como base, para a noção pós-moderna de transnacionalização do território, fato este possível, principalmente, representado pelos caminhos dos conteúdos comunicacionais. Observa-se que nesse contexto de desenvolvimento tecnológico, as fronteiras geográficas são desprezadas pela modernização da mídia. É possível afirmar também que a comunicação globalizada, mundializada, se refere à crescente interconexão entre as diferentes partes do mundo, um processo que deu origem às formas complexas de interação e interdependência.

As distâncias foram encurtadas e as fronteiras econômicas e culturais transpostas. Nota-se a utilização continua e a convivência das mídias digitais com maior ou menor grau, dependendo da localidade ou necessidade. O ato de conectar sociedades, grupos e multidões está há muito presente nos veículos de comunicação. Claro que desde a implantação e desenvolvimento do rádio com a utilização dos espectros de ondas curtas, médias e tropicais, muitas mudanças puderam ser acompanhadas e hoje se tem pelo menos no ocidente, nas sociedades democráticas, uma comunicação sem fronteiras, informações sem fronteiras.

No Brasil, uma pesquisa realizada em 2009 pelo Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br)  abrangeu, pelo segundo ano consecutivo, também a área rural do país, dando continuidade à série de cinco pesquisas com resultados consolidados. A posse de computador teve o seu maior crescimento nos últimos 5 anos: 36% dos domicílios possuem computador, enquanto apenas 28% tinham o equipamento em 2008. O mesmo ocorreu com o uso da Internet, passando de 20% dos domicílios com acesso à Internet em 2008, para 27% em 2009, representando um crescimento de 35% no período. O estudo apontou crescimento significativo no percentual de acessos à Internet nos domicílios em comparação aos centros públicos pagos, conhecidos popularmente como lanhouses. Pela primeira vez desde 2007 o acesso residencial, com 48% das menções, ficou à frente das lanhouses, citadas por 45% dos respondentes.

Os resultados de 2009 confirmam a tendência de aumento da posse das tecnologias de informação e comunicação (TICs) nos domicílios brasileiros. A televisão continua líder nos lares urbanos, mantendo o índice de 98%, seguido pelo rádio, com 86%. O telefone celular no mesmo ano estava presente em 82% das residências nas áreas urbanas e em 78% no total do país. Outro destaque é o crescimento do computador portátil. Entre 2007 e 2008 a posse deste equipamento cresceu 70%, passando de 3% para 5%.

O tipo de conexão à Internet mais utilizada nos domicílios é a conexão dedicada em banda larga, presente em 66% dos lares que possuem acesso à Internet. Apesar de se concentrar nos domicílios economicamente mais favorecidos, a taxa de crescimento anual mostra que a população com menor renda possui cada vez mais esse tipo de conexão. De 2008 a 2009, a utilização de serviços de comunicação móvel cresceu 12%.

Souza e Alvarenga (2004) explicam que a Internet surgiu como proposta de um sistema distribuído de comunicação entre computadores para possibilitar a troca de informações na época da Guerra Fria. A implantação do conceito de hipertexto  proposto por Ted Nelson e Douglas Engelbart (em 1962), buscava oferecer interfaces mais amigáveis e intuitivas para a organização e o acesso ao crescente repositório de documentos que se tornava a Internet. Entretanto, a rapidez, o enorme crescimento – além das expectativas – do alcance e tamanho desta rede e da ampliação das possibilidades de utilização, fazem com que seja necessária uma nova filosofia, com suas tecnologias subjacentes, além da ampliação da infraestrutura tecnológica de comunicação.

1.1 A proximidade no ciberespaço e o surgimento da nova inteligência

Este panorama de consumo e utilização de mídias vem corroborar a condição de ‘união’, de proximidade é viável quando se pensa em locais distantes, em pessoas distantes. Entretanto, quando se dá conta de que se pode estar conectado com o vizinho de porta, alguém tão próximo geograficamente, essa realidade se altera. A poluição à qual Virilio (2000: 87) se refere está ligada também a essa degradação da proximidade física entre os seres, causada pelo meio artificial no qual vivem as cidades e as sociedades. Houve, portanto, uma ruptura na relação com o outro, na relação com o mundo físico, com a unidade de vizinhança, com o familiar, com o próximo.

O estado de proximidade no qual se acredita estar quando se está no ciberespaço dá a noção de sermos “Cidadãos do Mundo”, diz Virilio (2000: 88). Essa condição de cidadão do mundo e não mais de uma sociedade, de uma cidade, segundo o autor, faz com que esqueçamos, demasiadas vezes, que habitamos também as dimensões físicas. Essa deterioração do contato com o mundo sensível se une à ecologia da natureza. Seria então uma ecologia do artifício das técnicas do transporte e das transmissões que exploram o campo das dimensões do meio geofísico e lhes degradam a amplitude.

Essa ecologia da velocidade se mistura à ecologia verde e o que se tem são as ecologias: cinzenta ao lado da verde. Virilio intitula esta ecologia como ‘cinzenta’, pois a cor cinza é o resultado de uma mistura de cores, seria uma não-cor. Para ele a velocidade mata a cor e é o que está ocorrendo com a sociedade. Essa ecologia da natureza do cinzento reordenará, sendo o autor, o mundo todo e a cidade-mundo será totalmente dependente das telecomunicações surgidas no final do século XX, início do século XXI.

Para Baudrillard (1995), uma característica do mundo atual é a proliferação incessante de objetos (“o tempo dos objetos”), além do aparecimento constante de certas novidades que rapidamente se tornam de uso mais ou menos comum, como o telefone celular, o videocassete ou o CD, por exemplo. Segundo o autor, num passado não muito distante, havia uma perenidade que hoje já não há: "Os objetos viam o nascimento e a morte de gerações humanas. Atualmente, são os homens que assistem ao início e ao fim dos objetos" (Baudrillard, 1995: 15).

A supremacia urbana desenvolvida no século XX e em constante expansão, parece exigir uma inteligência do artifício e não apenas uma outra política da natureza. Essa inteligência é descrita por Pierre Lévy (1999) como a Inteligência Coletiva (IC). O autor (1999: 157) explica que essas “tecnologias intelectuais (...) amplificam, exteriorizam e modificam numerosas funções cognitivas humanas”, encurtando distâncias e o tempo de acesso às informações.

Conforme Lévy (1999 apud DOS ANJOS, 2006), a palavra inteligência, ao ser ouvida pode levar o indivíduo a pensar a respeito de tudo o que se encontra armazenado em sua cabeça desde o dia de seu nascimento até àquele exato momento; consequentemente, também o leva a se questionar se é ou não inteligente. A inteligência “é o conjunto canônico das aptidões cognitivas, a saber, as capacidades de perceber, de lembrar, de aprender, de imaginar, de raciocinar” (LÉVY, 1994: 97). A segunda palavra é “coletiva” que é também carregada de importantes significados. Para Ideylson dos Anjos (2006: 29), ao se falar de coletividade recorda-se de um grupo de pessoas, composto de indivíduos que se ajudam mutuamente. Pode-se lembrar também dos grupos do local de trabalho, da Igreja, do bairro, como um grande grupo concentrado em um determinado local, e, por fim, pode-se referir ao gigantesco grupo da humanidade, no qual todos os seres humanos tentam se organizar para viver.

Nas palavras de Lévy (1999), a humanidade caminha para a construção de um novo espaço antropológico, o espaço do saber, no qual os seres humanos estarão interligados em tempo real pela Internet. Neste espaço, o ciberespaço, a inteligência será o centro das relações. Sobre essa constatação Kerckvove (1997: 250) expõe que a rapidez e a velocidade de processamento, futuramente, irão custar mais caro do que o próprio espaço. Dessa forma, estaria se desenvolvendo uma nova consciência do tempo “como se, depois de termos conquistado o espaço tornando-o menos constrangedor, a evolução tecnológica estivesse agora a dirigir-se ao tempo – real, virtual, pessoal e social – considerando-o como a última fronteira”.

Diante dessa nova reorganização geográfica, não se pode deixar de notar a nova relação entre lugar, distância e tempo criada pela revolução das transmissões. Embora se tenha uma proximidade útil, o encurtamento das distâncias e o aproveitamento maior do tempo, a cultura da velocidade deve ser revista. Pela sua utilização exagerada, tem-se a impressão e em alguns casos a nítida certeza de que o tempo é uma riqueza que está escasseando. Não ocorre mais como na sabedoria oriental, que dizia “o tempo é útil quando não é empregado” (VIRILIO, 2000: 90). O tempo é útil quando está preenchido de todas as maneiras, até mesmo com o vazio, com a não utilização deste, com o seu “desperdício”.

De Masi (2000) complementa que é necessário um tempo de ociosidade para, a partir deste “tempo”, surgir a criação. Pode-se admitir, na contemporaneidade, que estes tempos são permeados de aparatos de telecomunicações que no transcorrer dos anos, se tornaram indispensáveis à vida humana, à sociedade vigente. A importância das dimensões geofísicas não deve ser deixada de lado e nem ser tomada como algo negativo. Não fossem essas distâncias, não teria havido todos os esforços nas épocas dos descobrimentos; o homem não teria ido à Lua, não teria descoberto continentes e planetas, por exemplo.

Virilio (2000: 91) destaca ainda que existe uma última poluição depois do empreendimento ferroviário  e de um sistemas de autoestradas continental: a poluição da extensão geográfica pelo transporte supersônico e os novos meios de telecomunicação. Isso pressupõe estragos sob o sentimento de realidade do ser humano, uma perda de sentido de um mundo fragmentado, menos inteiro. Um sentimento de ausência de meio ambiente, uma morte geográfica em razão da aceleração dos media.

Essa aceleração pressupõe a lei do menor esforço, que impulsiona a criação e o uso das tecnologias. Sempre voltadas para ‘trabalhar’ para o ser humano, para que este se canse menos, se movimente mais rapidamente de um lugar a outro e possa aproveitar melhor seu tempo, proporcionando mais conforto. Isso é uma situação contraditória, pois, ao mesmo tempo em que se faz uso das tecnologias, perde-se a noção, inclusive, do peso físico, o que pode ocasionar sedentarismo involuntário, ocupação mental intelectual levando ao distanciamento da fragilidade física, da condição material do homem.

O ciberespaço oferece um mundo não-físico, sem movimento e, por conseguinte, sem fadiga. A Lei do menor esforço impera com propriedade no mundo virtual.
Com a ausência de esforço das tecnologias, para ouvir, ver ou agir à distância, abolindo as direções, a vastidão do horizonte terrestre, resta-nos descobrir daqui em diante o ‘novo mundo’, já não como há cinco séculos, o dos longínquos antípodas, mas o mundo de uma proximidade sem futuro, em que as tecnologias do tempo real prevalecerão em breve sobre aquelas que ordenavam outrora o espaço real do Planeta (VIRILIO, 2000: 92)

No ano 2000, quando Virilio teceu esse comentário, o Brasil ainda não estava ‘ciberespacializado’ tão profundamente como está atualmente e como estará daqui em diante. Na década passada vivenciava-se uma Internet mais lenta e com menos possibilidades de ferramentas interativas. Em junho de 2000  o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatísticas-IBOPE divulgou uma pesquisa que mostrou o avanço da internet no Brasil. Em fevereiro, eram 4,5 milhões de pessoas com acesso a rede no país. Em termos relativos, o número de internautas aumentou de 12% para 13% da população das regiões pesquisadas, onde viviam 38 milhões de pessoas. Apenas 5% (1,9 milhão) desse total navegavam em casa. A pesquisa foi feita com 15.396 pessoas entre 15 e 28 de maio, em nove regiões metropolitanas (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Fortaleza e Distrito Federal). Já no final do ano de 2000 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas -IBGE, divulgou o resultado de uma pesquisa realizada em 2009 que revelava a relação de usuários por habitante no Brasil, de 10 a 50 usuários de Internet para cada 10 mil habitantes. O índice é considerado baixo e faz parte dos dados do Atlas Nacional do Brasil. Na Austrália, por exemplo, a relação é de 100 a 500 usuários para cada 10 mil habitantes. Segundo o instituto Ibope Nielsen Online , de outubro de 2009 a outubro de 2010, no Brasil o número de usuários ativos (que acessam a Internet regularmente) cresceu 13,2%, atingindo 41,7 milhões de pessoas.

Conforme Derrick de Kerckhove (1997: 242), o espaço da Internet não é neutral não tem fronteiras, não é estável, nem unificado. Para o autor ela comporta-se como um sistema autorregulado em constante movimento, embora possa ser considerado como espaço público  de atividades coletivas.


3. Ampliação do (ciber)espaço e exclusão de limites territoriais

Assim como McLuhan, Kerckhove descreve a mídia eletrônica como uma extensão, não só do sistema nervoso e do corpo humano, mas também da imaginação e da consciência humanas. O autor observa ainda que, devido a implosão nanotécnica, aparece a crescente e progressiva perda das fronteiras psicológicas entre o eu e o meio ambiente. Como McLuhan e Lévy, ele aponta a Literacia (o império da escrita como modelo social dominante) como a responsável pela 'privatização da mente' e na criação artificial da idéia de um 'eu' individual uniforme. Porém, Kerckhove crê que, com telecracia e agora com as redes audiovisuais, a distinção entre espaço e identidade poderá ruir definitivamente (GOMES, 2010). Wiener (1993: 97) completa dizendo que “o transporte de mensagem serve para enviar, de um a outro confim do mundo, uma extensão dos sentidos do homem e de suas aptidões para a ação”.

A aldeia global, conceituada por McLuhan, se amplifica na era da globalização e imprime uma nova idéia de espaço. Kerckhove (1997: 243) destaca que o homem ao se conscientizar da noção de globalidade, fica mais consciente das identidades locais. “É isso que faz do mundo uma aldeia onde toda a gente conhece toda a gente, [...] que toda gente partilha do mesmo espaço”.

Kerckhove (1997: 244-246) ressalta ainda três características do que seria a tendência atual da globalização que merecem consideração: transparência; instantaneidade e ambientes inteligentes. A primeira característica – transparência – está ligada à distribuição instantânea de informações e ao fácil acesso de todos através dos media. A instantaneidade – segunda característica – impõe aceleração nas sociedades humanas. Esse item tem dois efeitos principais: um é o alcance e o feedback instantâneos e o outro é a eliminação dos períodos de adaptação. O mundo virtual, de estar sempre conectado, desintegra a percepção de tempo e espaço e dispensa os períodos de aquisição e adaptação que aparelhos mais antigos comportavam. A terceira característica diz respeito aos ambientes inteligentes disponíveis no ciberespaço. A possibilidade da criação de avatares (via Second Life e redes sociais virtuais, por exemplo) indica o que autor denomina ambientes inteligentes. Não só estes casos, mas outros como plataformas educacionais praticamente autossuficientes exibem a realidade exposta por Kerckhove.

Em se tratando de limites territoriais, pode-se dizer que essa noção tem sofrido mutações no que diz respeito tanto à fachada quanto ao aspecto de confrontação. Virilio (1993:9) explica que “da paliçada à tela, passando pelas muralhas da fortaleza, a superfície-limite não parou de sofrer transformações, perceptíveis ou não, das quais a última é provavelmente a da interface”. A localização urbana perdeu sua evidência de existir apenas no espaço físico e passou a ser considerada no ciberespaço. Com essa distância física, o autor se preocupa com a falta de existência do contato face a face. Tal contato não é de fato perdido no ciberespaço.

Em uma realidade onde o corpo palpável parece estar se tornando obsoleto em vista da crescente possibilidade de virtualização, Kerckhove (1997) expõe que só é possível existir, na realidade, debaixo da pele e que a interatividade é o tato. Sendo assim, mesmo que as tecnologias sejam extensões do homem, todas elas são interativas, pois estabelecem constantes e íntimas trocas de energia e de dados entre os nossos corpos e mentes e o ambiente global.  
Ela (a informática) tornou-se o ÚLTIMO RELEVO da realidade, uma realidade calculável como o era para os primeiros perspectivistas, a superfície do quadro...uma realidade virtual que oferece a cada um a extrema vontade de ser ao mesmo tempo mais ‘real’ que a imaginação e mais controlável que a realidade concreta (VIRILIO, 2000: 96).

Conforme Kerckhove, na era do livro o controle da linguagem era privado, mas com os media eletrônicos o controle da linguagem se torna público e oral. A Internet é o primeiro meio que carrega o oral e o escrito, o privado e o público, individual e coletivo ao mesmo tempo. Quando o autor expôs suas idéias, ele afirmava que a Internet estava se tornando uma estrada de informações e como expressão da mente coletiva, a Internet era mais sofisticada do que se conhecia até o momento.

Ao avaliar a Internet como ocupante de um importante espaço na vida dos seres humanos, concorda-se com Kerckhove (1997: 252) quando o autor afirma que a Internet está se tornando uma espécie de lar para um número cada vez maior de pessoas. Com a conectividade, segundo o autor, o espaço da Internet está vivo com uma presença vibrante, humana e coletiva.


4. Considerações finais

A nova dinâmica da comunicação, diante da velocidade informacional na qual os seres humanos estão inseridos, pressupõe um novo comportamento coletivo. Apesar de não estarmos presentes no ciberespaço, fisicamente falando, este é o ambiente de troca disponível para os processos comunicacionais entre indivíduos.

Desde o advento da eletrônica, os processos comunicacionais acrescentam novas possibilidades à sociedade. Tais processos ocorreram em diversos momentos da história da comunicação, desde meados do século XV com a invenção da prensa, quando Gutenberg provocou uma revolução no conhecimento da época.

Posteriormente, em um tempo de tecnologias mais evoluídas e com o desenvolvimento da transmissão de dados de forma binária, mudanças ocorreram. A Internet trouxe uma proximidade maior entre as extremidades do processo comunicacional, e com ela adequações de produção e distribuição de informações surgiram em diversos ambientes.

Os excessos que os elementos do ciberespaço podem proporcionar são vistos positiva ou negativamente por diversos autores e cabe aos pesquisadores notar em quais momentos se encaixam as boas e as más características dessa dinâmica de existência ciberespacial.

O século XXI chega com o mesmo sonho de navegação que os descobridores dos continentes e hoje o mundo navega mais do que nunca, só que agora é pilotando um computador, e demais aparatos que facilitam o acesso a informação. É nosso papel ter o discernimento do que é importante, do que é necessário ou qual o assunto que esta na lista do nosso desejo para desvendar.


5. REFERÊNCIAS BILIOGRÁFICAS


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O hipertexto é um documento digital composto por diferentes blocos de informações interconectadas. Essas informações são amarradas por meio de elos associativos, os links. Estes permitem que o usuário avance em sua leitura na ordem que desejar. Considera-se Ted Nelson o inventor do termo hipertexto – tal termo exprime o sonho de manter os pensamentos em sua estrutura multidimensional e não-sequencial. (LEÃO, 2005: 15-21)

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Res Pública, a coisa pública, era a ideia que os romanos tinham de como organizar uma sociedade de iguais. Foi o primeiro conceito na democracia ocidental de ‘domínio público’. (KERCKHOVE, 1997: 241)