Indice del artículo
Colocando em prática o Jornalismo Comunitário: expectativas e desafios
Introdução
2. Realidade brasileira e comunicação de massa
3. Jornalismo Comunitário: o que, por que e para que?
4. Colocando em prática
5. Considerações finais
BIBLIOGRAFÍA
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image O presente artigo tem como objetivo apresentar as práticas relativas ao Jornalismo Comunitário em cursos de graduação e a aplicação dos conhecimentos adquiridos pelos discentes, a partir de experiências bem sucedidas, bem como demonstrar as expectativas e os desafios para se colocar o Jornalismo Comunitário em prática no Brasil como forma de ampliar a democratização do acesso à informação e resgate e ampliação da cidadania de comunidades, fazendo-se cumprir a premissa da imprensa.


Fernanda Vasques Ferreira
Faculdade Facitec e Faculdade Projeção
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Revista 2- Año 1, (Abr-2011-Jun-2011)

ISSN 2173-6588

Resumo

O presente artigo tem como objetivo apresentar as práticas relativas ao Jornalismo Comunitário em cursos de graduação e a aplicação dos conhecimentos adquiridos pelos discentes, a partir de experiências bem sucedidas, bem como demonstrar as expectativas e os desafios para se colocar o Jornalismo Comunitário em prática no Brasil como forma de ampliar a democratização do acesso à informação e resgate e ampliação da cidadania de comunidades, fazendo-se cumprir a premissa da imprensa.

Palavras-chave
Jornalismo comunitário; desafios; expectativas; cidadania; comunidades

Abstract

The present article has as objective show the practices related to Communitarian Journalism in Graduation courses and the application of the knowledges acquired by learners, starting from well succeeded experiences, as well as demonstrate the expectations and challenges to put Community Journalism in practice in Brazil, as a form of amplifying the democratization of information access and rescue and amplification of communities citizenship, fulfilling press premises.

Keywords
Community Journalism, challenges, expectations, citizenship, communities


Introdução

A necessidade de discutir a prática do Jornalismo Comunitário no Brasil se dá, sobretudo, considerando a relação histórica e política estabelecida entre os órgãos de imprensa e os meios de comunicação brasileiros com a estrutura hegemônica de controle e acesso à informação no País. Considerando a imprensa o locus de debate e de acirramento de conflitos entre interesses divergentes, há que se destacar que em um país onde a mídia é controlada por políticos e empresários, é, sem dúvida, necessário pensar uma alternativa para romper com a estrutura de concentração de propriedade dos meios de comunicação, promovendo, assim, possibilidades de democratização do acesso à informação e a representação de comunidades, muitas vezes, anônimas  ou representadas de maneira marginalizada nos principais órgãos de imprensa.


Por essa razão, neste artigo, serão apresentadas as experiências realizadas no âmbito da disciplina Jornalismo Comunitário do curso de Jornalismo da Faculdade Facitec , ministrada pela autora deste artigo. O objetivo é demonstrar como foi o processo de estruturação da disciplina e a prática redacional junto aos alunos matriculados no quinto semestre do curso de Jornalismo, desde a sensibilização para o tema até a prática efetiva do Jornalismo Comunitário. As informações que sustentam o presente artigo foram obtidas no 1º semestre de 2010 e 1º semestre de 2011.


2. Realidade brasileira e comunicação de massa

No Brasil, o meio de comunicação mais hegemônico em termos de audiência é a televisão. Mesmo com o avanço nas políticas públicas relativas à democratização do acesso à internet e o considerável aumento do número de brasileiros com acesso à internet banda larga, a televisão continua sendo o meio de comunicação que lidera o ranking de audiência. Isso pode ser explicado também pela ampliação do acesso dos telespectadores, considerando que a televisão não exige conhecimentos específicos para que seja consumida enquanto meio de comunicação.

É válido lembrar que, no Brasil, existe uma herança colonial que se estende até os dias atuais e que caracteriza a propriedade dos meios de comunicação estabelecendo relações de promiscuidade com políticos e empresários. Essa relação é observada por Ramos  e Lima  principalmente na radiodifusão, o que não exclui também uma concentração de propriedade na mídia impressa e eletrônica . É o que os dois autores chamam de “coronelismo eletrônico”.

Para Lima, o principal fator que têm contribuído para a concentração da propriedade das comunicações de massa no Brasil se dá pelo descumprimento da normal legal (Decreto 236/67) que limita a participação societária do mesmo grupo nas empresas de radiodifusão a cinco concessões em VHF, em nível nacional, e a duas em UHF, em nível regional (estadual); o período de carência legal para venda das concessões de radiodifusão, isto é, para a troca legal de proprietários, é de apenas cinco anos e, mesmo assim, sabe-se que existem vendas antecipadas por meio da conhecida prática dos chamados "contratos de gaveta".

Por outro lado, a pesquisa “Rádios comunitárias: coronelismo eletrônico de novo tipo (1999-2004)”, divulgada em junho, revela dado preocupante quando aponta que 50% das emissoras autorizadas a funcionar pelo Ministério das Comunicações têm vínculos com políticos. O levantamento foi feito por Venício A. de Lima e Cristiano Aguiar Lopes, partiu da hipótese de que as rádios comunitárias se transformaram em instrumento de barganha política, configurando a prática de “coronelismo” .

Deste modo, conclui-se em um primeiro momento, que a mídia brasileira – principalmente a radiodifusão – está, de todos os modos, cercada por interesses que, definitivamente, não são os de informar com vistas ao interesse público, muito menos, está comprometida com a democratização do acesso à informação. O comprometimento que se tem observado na mídia brasileira quase sempre é com a troca de favores entre políticos, garantindo em alguns casos, cenários de consolidação política permanente .


3. Jornalismo Comunitário: o que, por que e para que?

Considerando o exposto, uma das alternativas na visão de estudiosos e pesquisadores para a democratização da informação e da comunicação no Brasil tem raízes no Jornalismo Comunitário que, apesar do ensino pouco difundido nas escolas de Jornalismo do País, pode significar uma segunda via para uma democratização do acesso à informação. Guareschi  afirma que as universidades deveriam ter mais interesse por esse segmento da imprensa, propondo maior estudo sobre a comunicação de bairro. Com a colaboração dos estudantes de jornalismo, o autor afirma que esses periódicos comunitários teriam melhor apresentação e o conseqüente reconhecimento da comunidade em que está inserido. Guareschi lembra que “não se pode ser cego, surdo e mudo socialmente falando”, e que todo ator social possui uma responsabilidade ética, especialmente no que diz respeito à comunicação. “O papel da universidade na sociedade é mostrar que ela é o local onde se reflete a dimensão humanista e crítica, e onde se deve, desenvolver a pesquisa científica” (Guareschi, 2003: 11-12)

Entende-se por Jornalismo Comunitário  aquele jornalismo que se dedica ao relato de fatos que atendem às demandas de determinada comunidade. É através do Jornalismo Comunitário que se busca resgatar a identidade individual e coletiva da sociedade na qual determinada comunidade está inserida. É a busca constante pela valorização da cultura local, de uma coletividade, a partir da noção de pertença do indivíduo à determinada comunidade. O Jornalismo Comunitário é a oportunidade de proporcionar aos indivíduos uma cidadania no sentido de poder exercer seu direito a uma comunicação ativa  e não apenas passiva  como acontece, via de regra, nos meios de comunicação de massa tradicionais e na grande mídia nos quais os cidadãos são representados, em grande parte, como indivíduos anônimos.

Sendo assim, o cidadão, ao ser inserido em um sistema de comunicação comunitária tem condições de participar de maneira ativa do processo de construção das notícias, da prática redacional à publicação de determinado veículo comunitário. Essa práxis conduz, cada vez mais, à produção de conteúdos que vão garantir um estreitamento entre o público leitor e a produção das informações. Essa sem dúvida é uma forma de garantir maior reciprocidade entre o veículo e a comunidade de forma que esta se veja representada naquele. A prática do Jornalismo Comunitário só é possível se o jornalista que se destina ao trabalho de comunicação comunitária tiver a sensibilidade e os olhos voltados para a comunidade, para os fatos que realmente têm importância para aqueles indivíduos que compõem a comunidade.

No Brasil, o Jornalismo Comunitário se difundiu principalmente a partir dos anos 70 e 80 coincidindo com o período ditatorial, no qual as liberdades individuais perdem importância na modernidade líquida citada por Bauman  e Berman . Mesmo assim, são poucas as faculdades de Jornalismo brasileiras que dedicam tempo em suas matrizes curriculares ao ensino do Jornalismo Comunitário.

Deste modo, como professora da disciplina Jornalismo Comunitário, entendi ser necessário sensibilizar os alunos do curso para a prática dessa atividade. Sensibilização que em dois semestres já rendeu bons frutos na aplicabilidade dos conhecimentos de alunos graduandos  e graduados  que poderão contribuir com uma comunicação mais democrática, acessível e cidadã no Brasil rompendo os duros obstáculos da comunicação democrática historicamente conhecida no País.


4. Colocando em prática

Durante os anos de experiência na docência no Ensino Superior de Jornalismo, e, mais recentemente com a decisão do Supremo Tribunal Federal no que tange à desregulamentação  da profissão de jornalista no Brasil, observei uma baixa auto-estima dos alunos, fundamentalmente daqueles já em fase de conclusão do curso. Essa baixa estima pode ser explicada não apenas pela decisão do Supremo como também pela baixa remuneração da profissão de jornalista, forçando, muitos deles, a manterem dois empregos. Esta observação foi além. A grande maioria dos alunos entra na faculdade cheia de sonhos, desejosos de “mudar o mundo”, de construir uma realidade diferente. Muitas vezes, os sonhos são solapados a partir dos primeiros estágios, nos quais eles se deparam com uma realidade conflitante e diferente da premissa e função social do jornalismo que é de representar o cidadão, ter função watch dog .

Acreditando no jornalismo como tendo a capacidade de construir a realidade social, promovendo mudanças e contribuindo para uma sociedade mais igualitária, melhor informada e mais cidadã, foi que iniciei a sensibilização dos alunos de Jornalismo Comunitário do curso de Jornalismo da Faculdade Facitec para o despertar da prática de um jornalismo mais consciente de si, mais próximo da proposta inicial do jornalismo tão difundida pelas teorias liberais da imprensa.

Em um primeiro momento, as aulas se dedicaram ao esclarecimento da proposta da disciplina e, posteriormente, à explicitação das possibilidades e potencialidades do Jornalismo Comunitário como caráter de mudança e transformação social. Experiências como as da Rádio Favela de Belo Horizonte  e da Rádio Congo , no município do Congo, no estado da Paraíba, foram fundamentais para demonstrar aos alunos da disciplina a potencialidade do Jornalismo Comunitário.

Aproveitando a sede de conhecimento dos graduandos e o potencial crescimento desse tipo de atividade profissional voltada para a comunidade em face à globalização crescente e, por essa razão, ao retorno do comunitário, foi proposto aos grupos de alunos que eles escolhessem  uma comunidade de acordo com sua proximidade e capacidade de inserção e interação do grupo com a mesma. Após a escolha das comunidades, os alunos tiveram o trabalho de visitar o local e conhecer um pouco mais sobre cada localidade, sobre as peculiaridades e complexidades de cada região. Em seguida, os alunos retornaram com sugestões de pautas e pautas inclusive já apuradas, tendo inicialmente, toda a turma escolhido o meio impresso para uma primeira publicação. Para a execução dos trabalhos nas comunidades, os grupos fizeram contatos com lideranças comunitárias, comerciantes, moradores, gestores públicos, que indicaram os temas mais importantes para serem realçados na comunidade.

Semanalmente, os grupos referentes a cada comunidade apresentam à professora da disciplina um relato dos contatos, matérias em fase de elaboração, fotografias e a diagramação do jornal. Os trabalhos de acompanhamento da pauta, produção, redação, edição e diagramação foram feitos ao longo das aulas, propiciando um maior contato entre os discentes e a prática e os conceitos do Jornalismo Comunitário. Após a elaboração e revisão do conteúdo final, os alunos se responsabilizaram pela impressão de um exemplar do jornal  para fins de apresentação e avaliação da disciplina. As apresentações foram encaradas pelos alunos e pela professora como uma oportunidade de socialização do conhecimento obtido e de valorização do trabalho de cada grupo perante a turma.  

Os resultados foram apresentados em uma das aulas  da disciplina de Jornalismo Comunitário e rendeu bons frutos no que diz respeito à melhoria da auto-estima dos alunos de jornalismo, bem como numa maior inserção dos alunos na prática do jornalismo enquanto atividade profissional, aproximação com o mercado de trabalho e um olhar mais otimista para o futuro da profissão, entendendo esta como uma oportunidade de transformação social, resgate e reforço da cidadania das comunidades em que realizaram a atividade.

Ademais, como atividade do segundo bimestre do primeiro semestre de 2011, os alunos puderam manter suas comunidades escolhidas ou alterar em função do interesse e proximidade para realização do trabalho. Nesse caso, decidiu-se ir além e fazer uma parceria com a Escola Estadual do Valparaizo (GO). O diretor da escola permitiu que, durante três finais de semana, os alunos realizassem oficinas  de produção de texto, de fotografia, produção de texto para web e filmagem, com duração de cerca de quatro horas, contribuindo para que os alunos do terceiro ano da escola pudessem retratar por meio de seus textos, orientados e supervisionados pelos alunos da disciplina de Jornalismo Comunitário e pela professora da disciplina, a realidade da sua comunidade sob o seu ponto de vista, sob o seu olhar .

Com uma atitude inovadora, os estudantes de jornalismo disponibilizaram um link para a comunidade do Valparaizo no site www.dfagora.com.br , onde serão publicados os textos dos alunos do terceiro ano da Escola Estadual do Valparaizo e dos alunos de Jornalismo Comunitário.


5. Considerações finais

O presente artigo revelou a possibilidade de se incentivar a prática do Jornalismo Comunitário como alternativa para a democratização da mídia, principalmente no caso brasileiro que sofre de concentração de propriedade conforme exposto anteriormente. Deste modo, o Jornalismo Comunitário pode ser uma excelente ferramenta para ampliar o acesso à informação, à disponibilidade das informações, propiciar maior interlocução entre produção e recepção do conteúdo dos veículos comunitários, permitindo maior representação da comunidade sem desvios e reprodução de estereótipos normalmente presentes na grande mídia.

É também uma excelente oportunidade para ampliar o mercado de trabalho para os recém-graduados e aqueles que se sensibilizam com a causa comunitária, ampliando e resgatando a cidadania e o direito de representação de milhares de indivíduos pertencentes às mais diferentes comunidades, muitas vezes marginalizadas na grande imprensa.

O Jornalismo Comunitário é, sem dúvida, uma alternativa para a concentração da propriedade dos meios de comunicação, para a comunicação tradicionalmente verticalizada conhecida no Brasil e para o fomento de cidadãos mais participativos e ativos no processo de construção de sua sociabilidade, representação e realidade.


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